Baunilha

O relacionamento de 20 anos com Maurício era o que as amigas dela chamavam de sorte rara.  Senso de humor idêntico, uma comunicação fácil, uma serenidade de quem já aprendeu a navegar mares revoltos juntos.

Maurício continuava bonito como quando ela o viu pela primeira vez, na adolescência.  Ele estava parado do outro lado da pista de dança, apoiado na parede, uma perna dobrada, acendendo um cigarro.  Ele olhou pra ela com pouco interesse e ela  pensou imediatamente que seu caminhão era gracioso mas ele era muita areia, cimento, tijolo,  não cabia.  Nunca se falaram.

Anos depois, já adultos, se reencontraram numa festa.  Perceberam  que caminhão e areia tinham a mesma medida.  Não se largaram mais.

Dois filhos, uma casa na praia, consultório dele, promoções dela , viagens e projetos depois,  ela se perguntava porque então não conseguia parar de desejar André, recém contratado para a área de Marketing da empresa onde trabalha.

André nem é tão bonito. É muito magro.  Tem barba, coque,  arrogância e quase idade para ser seu filho.  No café do 3 andar ela ouviu ele contar aos caras de TI que não vê a menor graça em mulheres novinhas, que uma mulher madura tira o sono dele.

O sono dela já não era mais o mesmo já havia um tempo. Começou com olhares no elevador,  que viraram conversas de duplo sentido  nos corredores, depois das reuniões, cada vez que ele precisava aprovar um projeto.   E ela se pegou acordando cada dia mais cedo, borboletas no estômago, escolhendo blusas cada vez mais decotadas, saias mais justas e saltos mais altos para trabalhar.

Ele entrava na sala dela sem bater na porta,  olhava assertivo e direto nos olhos dela fingindo não notar o decote, fazendo ela se sentir completamente nua.

Naquele dia ela  não conseguiu dormir e foi até a sala para não acordar Maurício.  Se masturbou pensando em André .  Há muito tempo não se masturbava.  Tirou a camisola em frente ao espelho do banheiro e se supreendeu com o próprio corpo,  estava mais bonita que aos 20 ou 30, certamente muito mais sexy.

No trabalho a secretária notou sua falta de concentração e ela foi ao café do 3o andar mais vezes que o normal, as horas pareciam não passar.  Até que André a chamou pelo ramal:

“Você pega a Paulista saindo daqui, né?  Me dá uma carona até o metrô?”

Ela demorou mais do que devia pra responder.  Pensou em dizer  que veio de Uber, em um milhão de motivos pra dizer não,  mas o suor escorria entre seus seios, o desejo não dava espaço pra ponderar nada,  a mão agarrou a chave do carro na bolsa :

“Claro.  Te encontro lá embaixo”

Não chegaram ao metrô, pararam numa daquelas ruazinhas pequenas com árvores dos dois lados, cujas folhas caem tanto que escondem o vidro do carro agora já completamente embaçado.  Lá dentro o suor dela e dele  se misturavam a tantos outros fluídos e sons.

Ela dirigiu pra casa correndo, subiu no elevador arrumando o cabelo, a blusa, a maquiagem borrada.  Tentava limpar o suor que agora brotava da culpa e abriu a porta de casa sem fazer barulho.  Maurício estava cozinhando o jantar de costas para a sala. Perguntou de maneira meio fria mas ansiosa por que ela tinha demorado tanto.

“A reunião não acabava mais. Esse projeto está complicado. O pessoal de marketing é novo, está me dando muito trabalho.  Vou tomar um banho”.

“Estou preparando um salmão pra nós, pra depois do seu banho, claro”.  Novamente um tom distante.

Ela estranhou essa coisa dele preparar o jantar.  Ele não cozinhava  desde os primeiros anos de casados. Maurício parecia estar longe, ela agradeceu ele não ter vindo até a sala, o cheiro de André ainda estava em seu corpo.

“Você deixou suas coisas de trabalho no carro? Vou até a garagem pegar.”

Ela já estava preparando o banho,  a temperatura do seu corpo elevadissima. Culpa, medo, Maurício descendo até o carro dela.  Será que ele sabe de algo?

Ela se enxugou com pressa, vestiu um roupão e correu  pra sala.  Maurício estava entrando pela porta com suas pastas e mala de trabalho e tinha uma expressão aflita.

“Precisamos conversar, Estela.” a voz dele presa, engasgada como nunca antes.

“Há tempos estou criando coragem  pra te dizer…     Eu…   Eu e a Ana…    Estela,  como pude ser tão clichê?   Ela tem metade da minha idade …  Estou vendo na sua cara o nojo que isso  provoca….Diz algo aí pra mim,  fala comigo Estela !!  Eu e  você temos essa história incrível, e eu joguei isso tudo pela janela por uma trepada com a recepcionista do consultório. Eu não sei o que deu em mim, Estela!!”

“Não vai embora, Estela, fala comigo.  Onde você vai?”

Ela vestiu uma roupa qualquer, enfiou umas camisetas e calças numa mochila. Pegou a escova de dentes, a bolsa, a chave do carro.

“Estela, me deixa explicar.  Me dá pelo menos meia hora de atenção.  A gente sempre conversou, entre a gente nunca houve esse silêncio.  Fica Estela!  Nem que seja pra esperar teu carro secar.  Fui pegar tuas coisas, encontrei o banco todo sujo, tive que descer de novo pra lavar.  Você nunca foi de comer no carro,  nem parece você.  Sorvete de baunilha, Estela??  …   Estela!! ”

 

 

 

 

Encaixe

Assim que coube

no teu abraço

Entendi a geometria

nenhum silêncio agora é longo

nenhuma palavra necessária

Só o mergulho, o desejo

a dança, o enlace

Corpo que sorri inteiro

Pernas que se trançam

Encaixe

Sintaxe

Quero ser esta para aquele que me aguarda

Conjugar todos os verbos

Que nos interessam

Desconstruir a gramática

encontrando o encaixe poético

Dos nossos pronomes pessoais

Sem torná-los possessivos

Mas por que ficaríamos reféns

de um parágrafo único,

Quanto temos tanta conjunção

de tempo, espaço?

23/09/2019

Oração

Que eu encontre um prumo

Enquanto corro em círculos

Que silencie um pouco o fluxo

Interno Intenso

Que eu saiba o Tempo das coisas

Sádico, lento

Que não me perca nas esquinas,

Explore os becos por dentro

Que eu fure a pedra,

Com a suavidade da chuva

das palavras que invento

E deixe um rastro colorido

Correndo, correndo.

20/09/2019

Nome (Crônica)

Exercício proposto no curso de crônicas de Fabrício Corsaletti – fevereiro 2019 na Escrevedeira.

Nome

Alô você, cujo nome é Paulo, Marcelo, Luís, Cláudia, Patrícia, Renata?  Vocês não fazem idéia. Nunca entenderão. Vocês já saíram com vantagem da maternidade.

Todo ser humano tem desejo de pertencimento. Especialmente na tenra idade. Quando se é criança, você quer ser como todo mundo na escola, não quer ser mais alta, nem mais magra, nem mais gordo, nem mais nerd. Você quer ser da turma, você quer ser parte.  E principalmente, você quer ter um nome que as pessoas consigam dizer.  A começar pela professora, na hora da chamada:

“ Márcio? Presente!  Maria Alice? Presente!  Maria Fernanda? Eu!  Marília? Aqui professora!   Mar…. Marj… Marj” (a lista de chamada se aproximando da vista, os óculos sendo colocados às pressas, o suor começando a brotar na testa da professora e já escorrendo da minha para o caderno na carteira)

À essa altura a classe toda virava pra procurar quem era o ET que teria um nome que nem a professora conseguia falar.

“Como se pronuncia o seu nome, meu bem?  Marjóri? Marjorrí?”

“É Marjory, professora, acento no a.”

Gargalhada geral naquela 5a serie A dos anos 70.  Ninguém quer ser o motivo da gargalhada geral da 5a série A ou da B em qualquer década que seja, a menos que você seja o palhaço da classe. Eu não era. Ninguém tinha um nome assim. Eu tinha. Era foda.

Não bastasse,  achei que tendo uma festa de aniversário na escola naquele ano talvez me fizesse mais popular.  Talvez parassem de me chamar de Marjóri no intervalo. Talvez começassem a me escolher para o time de handball.  Santa ingenuidade, Batman!

Minha mãe encomendou um bolo na confeitaria do bairro (sim, nos anos 70 elas se chamavam assim). E deixou um guardanapo escrito  “PARABÉNS MARJORY”  em letras garrafais para que a dona da confeitaria escrevesse em cima do bolo, que tinha formato retângulo grande e era coberto com creme branco e bordas confeitadas azuis. Minha mãe buscou de tarde o bolo embrulhado em papel fosco enrolado com barbante e levou-o até à escola.  A professora de Artes colocou o bolo na minha frente ante ao olhar curioso dos colegas, cortou o barbante e começou a abrir o papel devagar.   “PARABÉNS MARGARETE” era o que se lia, em letras azuis cheias de confeito em cima do bolo. Imediatamente, explodiu sem piedade a segunda gargalhada geral da 5a série A.

Com certeza minha mãe errou a grafia do nome da própria filha, pensou a dona da confeitaria. Ninguém tinha um nome assim.  Eu tinha.

Corte brusco para o ano de 1985,  eu adolescente com  cabelinho espetado meio punk, meio new wave, parada num canto de uma danceteria (sim, nos anos 80 elas se chamavam assim)  e ensaiando uns passos enquanto tocava alguma musica do Duran Duran bem alto.  Eis que se aproxima um carinha uns 2 ou 3 anos mais velho, provavelmente vestido de punk de butique, cheio de alfinetes falsamente enfiados na orelha,  querendo ser o Billy Idol, e puxa papo, gritando no meu ouvido pra vencer a música:

“ E aí gata, como é seu nome?”

“Marjory”

“Quê?”

“Marjory”

“Como?”

“Mar-jo-ry”

“ Ahn??”

“Márcia”

“Ah!  Márcia, você tem fogo?”

Tenho fogo, tenho raiva, tenho um nome que ninguém tem!

Mas os anos passam, a caravana passou, os cães deram suas latidas, o Senna namorou antes da Xuxa uma modelo chamada Marjorie Andrade, a internet chegou e fez o mundo virar uma ostra e outras Marjories se materializaram, e finalmente a Globo contratou a atriz Marjorie Estiano… E, ah!  Abençoada sejas tu, Estiano, que fez meu nome pertencer, pelo menos por  um pouco de tempo ao panteão dos reles mortais !

Mas seja Estiano, ano passado ou o que virá,  e independente de estarmos todos no sec XXI onde bebês já ganham nomes bizarros como Feicebuqui ou Fakenews, ainda ocorre que quando chego na portaria de um prédio invariavelmente se dá o seguinte diálogo:

“Boa tarde eu vou no apartamento 72 , dona Doris”

“Comé o nome da senhora?”

“Marjory”

“Dona Doris, boa tarde,  tá aqui embaixo a dona Narjara, ela pode subi?”

 

Gigante (conto)

Formou-se em Turismo na pequena cidade natal sem saber exatamente porque tinha escolhido esse caminho, só com a certeza que aquele lugar era pequeno demais para seus sonhos.

Decidiu ir para São Paulo, e já desceu do ônibus entendendo que os sonhos todos cabiam numa mala enquanto aquela cidade, gigante, onde acaba?

Então saiu à procura de emprego, currículo de meia página na mão e andou sem saber voltar.  Todo mundo parece saber exatamente onde vai, onde vão?

Voltou a andar, no dia seguinte e no outro, de Hotel em Hotel, todas as agências de viagens, companhias aéreas, motéis (porque não?)

“Não!”

“Tem experiência?”

“Quem te indicou?”

Na semana seguinte, ainda não reconhecia ruas, ainda passava duas vezes pelo mesmo bar da esquina, ainda errava a estação de metrô, ainda não, não e não.

“O aluguel vai pagar quando?” cobrou de novo a dona da pensão.

No dia seguinte, passando pelo Anhangabaú, acendeu o cigarro de um dos homens-placa-sanduíche que entre vários outros anunciava a compra de Ouro.

“Onde consigo uma destas pra mim?”

Cinco horas depois já era um deles, letras vermelhas dizendo:  “Guia Turístico:  Perca-se comigo em São Paulo”

Encontrou-se.

16/08/2018

Lobo em pele de cordeiro

O monstro de rosto  familiar, de feições bonitas e olhos doces é o inimigo a temer.

Ele engana porque é doutor na Arte das palavras e poderia-se jurar que é cheio de boas intenções.  Mas a palavra que ele usa pra seduzir é a mesma espada afiada que ele, o samurai de preto,  finca com golpe certeiro em algum ponto nevrálgico da alma de suas presas.

Tem prazer na confusão que provoca.  Não quer se entendido, quer ser notado.  Não quer explicar, sentir , ouvir nada.

Ele tem pressa , porque há tanto “Eu” nele que  precisa ser satisfeito.

E mesmo assim,  sai sempre à caça, predador que é, travestido em anjo, ao encontro daquelas que se apaixonarão  pela mentira que ele vende banhada em ouro . E  voltarão para suas casas enfeitiçadas, atordoadas e excitadas com a possibilidade de decifrar o enigma que ele propõe,  sem saber que decifrando ou não, elas serão devoradas.  E depois cuspidas. Sim, porque ele quer muito devorar mas não quer  restos, não há espaço, então há que cuspi-los.

E ele segue deixando as carcaças pelo caminho, sangue escorrendo dos caninos.

17/06/2017

 

 

A morte de Ataliba Pecegueiro (conto)

No dia 08 de outubro correu a notícia . Comoção na cidade.  Acompanharam o cortejo pelas ruas, jogando flores.  Viúva em estado de choque, andando atrás do caixão, amparada pelos filhos, todos de preto. Coroas de flores em profusão, com mensagens consternadas de todos os cantos do país.

 

No primeiro aniversário de sua morte, o padre rezou a missa e o filho mais velho leu seu poema mais conhecido para a igreja lotada. O silêncio somente quebrado pelo ocasional soluço da viúva e da filha do meio.  A cidade saiu a caminho do cemitério, a  visitar sua sepultura e cantar sua musica predileta ao som de aplausos.  Discursos acalorados de politicos influentes, escritores e poetas regionais, saudosos.

 

No quinto aniversário, o prefeito, reeleito, descerrou a placa em sua homenagem e encomendou o busto de bronze a ser colocado na praça, em frente ao coreto.Os colegas do Círculo Literário organizaram o sarau onde leram sua antologia mais celebrada, depois de muitas garrafas do seu conhaque favorito.   Na vitrine da única livraria da cidade, seu livros de poesia em destaque. O filho bastardo, que ninguém sabia existir, começou a brigar pelo espólio, depois do teste de DNA.

 

No sétimo aniversário, choraram a morte da viúva, enterrada ao seu lado, no mausoléu da parte nobre do cemitério. Os filhos que ainda se falavam abriram um Centro Cultural com seu nome,  na rua da praça,  à esquerda do restaurante do Neves, onde toda quinta ele pedia o feijão tropeiro da Ivete, para depois passar horas sentado à ultima mesa da esquerda, rabiscando em guardanapos as rimas dificeis conhecidas como “pecegueiras”.

Nas eleiçoes daquele ano, ganhou o candidato da oposição, rapaz novo que nunca leu uma poesia na vida.

 

No décimo aniversário, o Centro Cultural fechou as portas por falta de verbas.  O filho mais velho foi morar na Suiça, tendo se apropriado da herança de forma desonesta .  Seus livros já estavam fora de catalogo.  A livraria da cidade passou a ser um bar de musica sertaneja.  O busto na praça, coberto de sujeira de pombo, estava irreconhecivel.

 

No décimo quinto aniversário, não havia mais ninguém da família lá. O busto tinha sido depredado.  Um estudante de Literatura da capital chegou à cidade buscando referências, com “Versos de Outrora” em mãos.  Ninguem sabia informar.  O Circulo Literário era agora um Buffet Infantil onde naquele dia se comemorava o aniversário de 5 anos do filho do prefeito, vestido de Homem Aranha.   Adolescentes andavam de skate na rampa construida onde antes era o coreto,  um grupo de meninas posava para uma selfie em frente à sorveteria do Neves, fazendo biquinho, e o carro de som passava anunciando o show do Wesley Safadão na cidade vizinha.

 

A cidade toda agora tinha wi-fi, mas não tinha poesia.

E assim morreu Ataliba Pecegueiro.

03/05/2017

 

 

 

Vermelho Escarlate (conto)

Sábado de garoa fina e a boate estava lotada com os mesmos 15 gatos pingados de sempre, engravatados habitués que fumavam muito e afogavam em whisky barato casamentos de aparência,  desejos presos em armários, profissões indesejadas e mal remuneradas.

Àquela altura,  já tinham assistido aos shows de praxe : Stefanie se equilibrando mal no salto e dublando Whitney Houston com uns tremeliques exagerados no labio , Talita com a maquiagem escorrendo do choro forçado no final do tema de Titanic , a  nariguda Desiree e seus pés no chão saudando sua amada Bethânia, a enorme e negra Samantha ao piano encarnando uma Aretha Franklin quase melhor que a própria (mais nenhum deles lá saberia julgar isso) e o final  apoteótico com todas cantando juntas um numero já batido das divas do pop e soul.

E vieram os aplausos sem vontade , assim como o garçom  passou como de praxe de mesa em mesa, recolhendo copos e gorjetas cada sábado mais miudas.  E eles acenderam seus cigarros de praxe e começaram a se levantar sem vontade para acertar suas contas ou pedir  pendura.

Foi então que a luz do palco se apagou e o fumacê dos cigarros não permitiu que enxergassem que alguém mais se posicionava .  Um foco grande e branco se fez no pequeno tablado em frente as mesas e obrigou os que tinham se levantado a se acomodar novamente em suas cadeiras.

Silêncio.  A figura no foco da luz não tinha o menor glamour. Nem um brilho, nada de paetês, e quase zero maquiagem.  Estava de salto, mas era um tamanco velho, e trajava um vestido que lhe dava uma aparência cansada e matriarcal com enchimentos nos seios que saltavam pra fora de forma patética. Uma bolsa de couro cru pendia diagonalmente de seu ombro até a cintura. A peruca parecia maior que sua cabeça e colocada de maneira errada, sem ajuste. Na boca, um batom borrado vermelho escarlate.

Da mesa la de trás veio um arroto alto, quase um protesto. Um fez menção de se levantar novamente pra ir embora, o outro o puxou de volta quase que por instinto.

Demoraram a reconhecer mas enfim não estavam tão bêbados  que não soubessem se tratar do Souza, o gerente da boate, careca bombado que ia sempre embora de Harley Davidson e cara de poucos amigos.

Era o Souza lá, sim. E seu rosto tambem estava borrado de choro. Os olhos vermelhos sanguineos traíam o tanto de coragem que precisou para enfim encarar o palco e aqueles homens que odiava, vestido daquele jeito, naquela noite. E algo não estava bem.

Limpou a garganta , segurou o microfone com uma das mãos:

“Boa noite damas e cavalheiros”, começou, a voz falhando e  vindo de um feminino que não sabia ser dele, “meu nome é Hilda Hilst “

“Vai tomar no cu, Hilda”  veio de algum canto que ele ignorou.

“Vou ler pra vocês um dos meus poemas” começou , a tatear o vestido.  “Só um minuto” puxou nervoso um papel amassado de dentro da bolsa  e aproximou novamente a boca do microfone:

“Desejo “  leu devagar,

“Quem és?  Perguntei ao desejo.

Respondeu : lava.   Depois pó.  Depois nada.”

Silêncio. Tosse.  Um novo arroto lá de trás.

Andou até a segunda mesa da esquerda e grudou um beijo na boca de um quarentão grisalho anestesiado demais para reagir.

Voltou ao palco e se posicionou novamente no centro do foco de luz, de costas para as mesas.  Tirou da bolsa uma arma pequena e  a colocou dentro da boca,. Disparou.

O barulho do tiro provocou uma microfonia que ensurdeceu a plateia muda e agora encharcada de vermelho escarlate.

10/04/2017