Exercício proposto no curso de crônicas de Fabrício Corsaletti – fevereiro 2019 na Escrevedeira.
Nome
Alô você, cujo nome é Paulo, Marcelo, Luís, Cláudia, Patrícia, Renata? Vocês não fazem idéia. Nunca entenderão. Vocês já saíram com vantagem da maternidade.
Todo ser humano tem desejo de pertencimento. Especialmente na tenra idade. Quando se é criança, você quer ser como todo mundo na escola, não quer ser mais alta, nem mais magra, nem mais gordo, nem mais nerd. Você quer ser da turma, você quer ser parte. E principalmente, você quer ter um nome que as pessoas consigam dizer. A começar pela professora, na hora da chamada:
“ Márcio? Presente! Maria Alice? Presente! Maria Fernanda? Eu! Marília? Aqui professora! Mar…. Marj… Marj” (a lista de chamada se aproximando da vista, os óculos sendo colocados às pressas, o suor começando a brotar na testa da professora e já escorrendo da minha para o caderno na carteira)
À essa altura a classe toda virava pra procurar quem era o ET que teria um nome que nem a professora conseguia falar.
“Como se pronuncia o seu nome, meu bem? Marjóri? Marjorrí?”
“É Marjory, professora, acento no a.”
Gargalhada geral naquela 5a serie A dos anos 70. Ninguém quer ser o motivo da gargalhada geral da 5a série A ou da B em qualquer década que seja, a menos que você seja o palhaço da classe. Eu não era. Ninguém tinha um nome assim. Eu tinha. Era foda.
Não bastasse, achei que tendo uma festa de aniversário na escola naquele ano talvez me fizesse mais popular. Talvez parassem de me chamar de Marjóri no intervalo. Talvez começassem a me escolher para o time de handball. Santa ingenuidade, Batman!
Minha mãe encomendou um bolo na confeitaria do bairro (sim, nos anos 70 elas se chamavam assim). E deixou um guardanapo escrito “PARABÉNS MARJORY” em letras garrafais para que a dona da confeitaria escrevesse em cima do bolo, que tinha formato retângulo grande e era coberto com creme branco e bordas confeitadas azuis. Minha mãe buscou de tarde o bolo embrulhado em papel fosco enrolado com barbante e levou-o até à escola. A professora de Artes colocou o bolo na minha frente ante ao olhar curioso dos colegas, cortou o barbante e começou a abrir o papel devagar. “PARABÉNS MARGARETE” era o que se lia, em letras azuis cheias de confeito em cima do bolo. Imediatamente, explodiu sem piedade a segunda gargalhada geral da 5a série A.
Com certeza minha mãe errou a grafia do nome da própria filha, pensou a dona da confeitaria. Ninguém tinha um nome assim. Eu tinha.
Corte brusco para o ano de 1985, eu adolescente com cabelinho espetado meio punk, meio new wave, parada num canto de uma danceteria (sim, nos anos 80 elas se chamavam assim) e ensaiando uns passos enquanto tocava alguma musica do Duran Duran bem alto. Eis que se aproxima um carinha uns 2 ou 3 anos mais velho, provavelmente vestido de punk de butique, cheio de alfinetes falsamente enfiados na orelha, querendo ser o Billy Idol, e puxa papo, gritando no meu ouvido pra vencer a música:
“ E aí gata, como é seu nome?”
“Marjory”
“Quê?”
“Marjory”
“Como?”
“Mar-jo-ry”
“ Ahn??”
“Márcia”
“Ah! Márcia, você tem fogo?”
Tenho fogo, tenho raiva, tenho um nome que ninguém tem!
Mas os anos passam, a caravana passou, os cães deram suas latidas, o Senna namorou antes da Xuxa uma modelo chamada Marjorie Andrade, a internet chegou e fez o mundo virar uma ostra e outras Marjories se materializaram, e finalmente a Globo contratou a atriz Marjorie Estiano… E, ah! Abençoada sejas tu, Estiano, que fez meu nome pertencer, pelo menos por um pouco de tempo ao panteão dos reles mortais !
Mas seja Estiano, ano passado ou o que virá, e independente de estarmos todos no sec XXI onde bebês já ganham nomes bizarros como Feicebuqui ou Fakenews, ainda ocorre que quando chego na portaria de um prédio invariavelmente se dá o seguinte diálogo:
“Boa tarde eu vou no apartamento 72 , dona Doris”
“Comé o nome da senhora?”
“Marjory”
“Dona Doris, boa tarde, tá aqui embaixo a dona Narjara, ela pode subi?”