No dia 08 de outubro correu a notícia . Comoção na cidade. Acompanharam o cortejo pelas ruas, jogando flores. Viúva em estado de choque, andando atrás do caixão, amparada pelos filhos, todos de preto. Coroas de flores em profusão, com mensagens consternadas de todos os cantos do país.
No primeiro aniversário de sua morte, o padre rezou a missa e o filho mais velho leu seu poema mais conhecido para a igreja lotada. O silêncio somente quebrado pelo ocasional soluço da viúva e da filha do meio. A cidade saiu a caminho do cemitério, a visitar sua sepultura e cantar sua musica predileta ao som de aplausos. Discursos acalorados de politicos influentes, escritores e poetas regionais, saudosos.
No quinto aniversário, o prefeito, reeleito, descerrou a placa em sua homenagem e encomendou o busto de bronze a ser colocado na praça, em frente ao coreto.Os colegas do Círculo Literário organizaram o sarau onde leram sua antologia mais celebrada, depois de muitas garrafas do seu conhaque favorito. Na vitrine da única livraria da cidade, seu livros de poesia em destaque. O filho bastardo, que ninguém sabia existir, começou a brigar pelo espólio, depois do teste de DNA.
No sétimo aniversário, choraram a morte da viúva, enterrada ao seu lado, no mausoléu da parte nobre do cemitério. Os filhos que ainda se falavam abriram um Centro Cultural com seu nome, na rua da praça, à esquerda do restaurante do Neves, onde toda quinta ele pedia o feijão tropeiro da Ivete, para depois passar horas sentado à ultima mesa da esquerda, rabiscando em guardanapos as rimas dificeis conhecidas como “pecegueiras”.
Nas eleiçoes daquele ano, ganhou o candidato da oposição, rapaz novo que nunca leu uma poesia na vida.
No décimo aniversário, o Centro Cultural fechou as portas por falta de verbas. O filho mais velho foi morar na Suiça, tendo se apropriado da herança de forma desonesta . Seus livros já estavam fora de catalogo. A livraria da cidade passou a ser um bar de musica sertaneja. O busto na praça, coberto de sujeira de pombo, estava irreconhecivel.
No décimo quinto aniversário, não havia mais ninguém da família lá. O busto tinha sido depredado. Um estudante de Literatura da capital chegou à cidade buscando referências, com “Versos de Outrora” em mãos. Ninguem sabia informar. O Circulo Literário era agora um Buffet Infantil onde naquele dia se comemorava o aniversário de 5 anos do filho do prefeito, vestido de Homem Aranha. Adolescentes andavam de skate na rampa construida onde antes era o coreto, um grupo de meninas posava para uma selfie em frente à sorveteria do Neves, fazendo biquinho, e o carro de som passava anunciando o show do Wesley Safadão na cidade vizinha.
A cidade toda agora tinha wi-fi, mas não tinha poesia.
E assim morreu Ataliba Pecegueiro.
03/05/2017