Vermelho Escarlate (conto)

Sábado de garoa fina e a boate estava lotada com os mesmos 15 gatos pingados de sempre, engravatados habitués que fumavam muito e afogavam em whisky barato casamentos de aparência,  desejos presos em armários, profissões indesejadas e mal remuneradas.

Àquela altura,  já tinham assistido aos shows de praxe : Stefanie se equilibrando mal no salto e dublando Whitney Houston com uns tremeliques exagerados no labio , Talita com a maquiagem escorrendo do choro forçado no final do tema de Titanic , a  nariguda Desiree e seus pés no chão saudando sua amada Bethânia, a enorme e negra Samantha ao piano encarnando uma Aretha Franklin quase melhor que a própria (mais nenhum deles lá saberia julgar isso) e o final  apoteótico com todas cantando juntas um numero já batido das divas do pop e soul.

E vieram os aplausos sem vontade , assim como o garçom  passou como de praxe de mesa em mesa, recolhendo copos e gorjetas cada sábado mais miudas.  E eles acenderam seus cigarros de praxe e começaram a se levantar sem vontade para acertar suas contas ou pedir  pendura.

Foi então que a luz do palco se apagou e o fumacê dos cigarros não permitiu que enxergassem que alguém mais se posicionava .  Um foco grande e branco se fez no pequeno tablado em frente as mesas e obrigou os que tinham se levantado a se acomodar novamente em suas cadeiras.

Silêncio.  A figura no foco da luz não tinha o menor glamour. Nem um brilho, nada de paetês, e quase zero maquiagem.  Estava de salto, mas era um tamanco velho, e trajava um vestido que lhe dava uma aparência cansada e matriarcal com enchimentos nos seios que saltavam pra fora de forma patética. Uma bolsa de couro cru pendia diagonalmente de seu ombro até a cintura. A peruca parecia maior que sua cabeça e colocada de maneira errada, sem ajuste. Na boca, um batom borrado vermelho escarlate.

Da mesa la de trás veio um arroto alto, quase um protesto. Um fez menção de se levantar novamente pra ir embora, o outro o puxou de volta quase que por instinto.

Demoraram a reconhecer mas enfim não estavam tão bêbados  que não soubessem se tratar do Souza, o gerente da boate, careca bombado que ia sempre embora de Harley Davidson e cara de poucos amigos.

Era o Souza lá, sim. E seu rosto tambem estava borrado de choro. Os olhos vermelhos sanguineos traíam o tanto de coragem que precisou para enfim encarar o palco e aqueles homens que odiava, vestido daquele jeito, naquela noite. E algo não estava bem.

Limpou a garganta , segurou o microfone com uma das mãos:

“Boa noite damas e cavalheiros”, começou, a voz falhando e  vindo de um feminino que não sabia ser dele, “meu nome é Hilda Hilst “

“Vai tomar no cu, Hilda”  veio de algum canto que ele ignorou.

“Vou ler pra vocês um dos meus poemas” começou , a tatear o vestido.  “Só um minuto” puxou nervoso um papel amassado de dentro da bolsa  e aproximou novamente a boca do microfone:

“Desejo “  leu devagar,

“Quem és?  Perguntei ao desejo.

Respondeu : lava.   Depois pó.  Depois nada.”

Silêncio. Tosse.  Um novo arroto lá de trás.

Andou até a segunda mesa da esquerda e grudou um beijo na boca de um quarentão grisalho anestesiado demais para reagir.

Voltou ao palco e se posicionou novamente no centro do foco de luz, de costas para as mesas.  Tirou da bolsa uma arma pequena e  a colocou dentro da boca,. Disparou.

O barulho do tiro provocou uma microfonia que ensurdeceu a plateia muda e agora encharcada de vermelho escarlate.

10/04/2017

 

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